Você trabalha todos os dias. Todos os dias você se levanta e cumpre uma rotina espartana. Acorda cedo e dorme tarde, roubando alguns minutos de lazer dos dias da semana. Você assiste uns três filmes por noite por que não consegue dormir. Havia um tempo em que isso tudo seria até mesmo impronunciável, mas você está longe de casa, você não conhece ninguém, você não tem tempo para os amigos. Você lembra com saudade, mas sem remorso, do que deixou para trás, você escreve linhas tortas com recados pequenos para seus avós, primos e irmãos, dá um telefonema mensal para os pais. Aos finais de semana você caminha sozinha, entra em algum bar toma uma cerveja, duas, três, joga uma partida de sinuca. Você tem conhecidos. Em algum lugar de algum armário na sua cidade, você escondeu algo. Você não lembra mais, esparsos são os sorrisos que lhe vem a memória, o contato já escapou no esquecimento, mas sente faltar algo. Você caminha como se tivesse esquecido a chave, e você confere o bolso: lá está ela. Nada falta.
6 de março de 2009
ARTE DA FUGA (FALSO ERUDITISMO DA VIDA)
Por
Michelle Robert
às
02:37
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tratados
farejar as coisas boas
18 de setembro de 2008
19 de dezembro de 2007
o bom filho
Control
Foi uma longa espera. Nem mesmo a falada “Touch from a distance”, biografia de Ian Curtis, matou a sede. Afinal o hiato entre essa publicação e a elaboração do filme foi grande. Eis que em uma tarde dessas, na rotina moura de trabalho para fazer, recebo a notícia que o control estava na internet. Para não dormir, devido ao cansaço, assisti “Control” sentada (nunca faço isso).
A fotografia de Corbjin ajuda na sensação de sonolência: o preto e branco impiedoso, agravando os traços e as sombras; quase pintura. A trama já está mais do que sabida, mas o ator que faz o papel de Curtis é de uma minúcia fantástica. Não vamos esperar um alcance divino de todas as nuances da vida do morto, mas é espantosa a atuação.Dizem que alguns atores são amaldiçoados pelos papéis que fazem bem. Acho que é esse o caso. Dificilmente alguém olhará para Sam Riley sem se remeter a Ian Curtis, mil desculpas.
A outra personagem brilhosa da trama é a cidade de Manchester, que por si só dá uma boa história para fãs, mas entedia a todos que não conhecem sua importância. Curtis tem seu lado pop, assim como teve um história excêntrica: trabalhar com pessoas desajustadas em um centro de reabilitação social não é nada glamouroso. Mas traz a exata idéia de que naquele momento, rock’ n’ roll se fazia na unha e no suor ( e na cara de abandono). Ali, bandas e um pequeno cenário conseguem ter força para ramificar uma das tendências do punk e do rock: surge o Joy Division, a Certain Ratio, The Fall.
Quanto ao filme, à narrativa em si é coesa e simples. Não é um filme bem-humorado como “24 hours party people”, é filme quase documental, diria até mesmo…pedagógico. Mas o fabuloso trabalho de fotografia e a sonoridade estupidificam os mortais com menos de 30 anos, aposto.
Eu não tinha um bom motivo para voltar a escrever aqui. Muito ao contrário. Continuo no lápis e no borrachão mercury. Sem nenhuma vontade de trancrever as coisas que já escrevi no papel . Mas eu assisti o filme e a coragem do personagem Ian Curtis, a vibração de
quem quer fazer aquilo. que quer de qualquer jeito, mesmo que não seja do jeito certo,mesmo que o “presente esteja fora de controle”, mesmo que não se saiba o que acontecerá, essa urgência, me animou.
Fico contente de ter assistido e principalmente de não ter que esperar uns bons dois anos para o filme chegar aqui na roça.
E volto a escrever aqui, como estarei sempre escrevendo por aí, ou em outro lugar.
Por
Michelle Robert
às
12:38
1 tratados
farejar as coisas boas, Fina Flor
